Em uma década marcada por transformações rápidas no mercado de trabalho, um dado resume a pressão sobre as economias: cerca de 1,2 bilhão de jovens devem entrar no mercado de trabalho nos próximos dez anos, segundo estudo do Banco Mundial, divulgado neste ano de 2026. O desafio agora é a criação de vagas suficientes para absorver esse contingente.
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Crescer economicamente já não basta. Países podem avançar em indicadores macroeconômicos e, ainda assim, conviver com desemprego elevado ou subemprego persistente, conforme afirma Lucas Borges, financista, economista e consultor estratégico, especialista em Análise Financeira pela Saint Paul Escola de Negócios. Ele diz que parte da confusão no debate vem da forma como se mede o desempenho econômico. “O Produto Interno Bruto [PIB] mede produção, não necessariamente pessoas empregadas”, afirma ele ao Portal E21. “A economia pode crescer com automação e ganhos de eficiência, sem novas contratações. Isso ocorre quando o crescimento é puxado por setores de alta tecnologia ou capital intensivo.” (Abaixo, link de The Times They Are A-Changin’, com Bob Dylan).
Países como México, Vietnã e Bangladesh ajudam a dimensionar o impacto quando o crescimento vem acompanhado de emprego. No México, mais de 13 milhões de pessoas saíram da pobreza entre 2018 e 2024, com a taxa caindo de cerca de 42% para menos de 30% da população, segundo dados do Instituto Nacional de Estadística y Geografía e análises internacionais. Apenas entre 2022 e 2024, cerca de 8,3 milhões de mexicanos deixaram a pobreza.
No mercado de trabalho, o país chegou a cerca de 60 milhões de pessoas ocupadas e registrou a criação de mais de 1,3 milhão de empregos em 2024, de acordo com a Pesquisa Nacional de Ocupação e Emprego do próprio INEGI. O avanço da renda do trabalho e algum grau de formalização ajudam a explicar esse movimento.
No Vietnã, o processo foi mais estrutural. Dados do Banco Mundial mostram que, entre 2010 e 2020, a maior parte da redução da pobreza veio da migração de trabalhadores da agricultura para a indústria e os serviços. Foi esse deslocamento que sustentou a criação de milhões de empregos e ajudou a transformar o perfil econômico do país.
Já Bangladesh apresenta um dos casos mais expressivos em números absolutos. Segundo o Banco Mundial, cerca de 34 milhões de pessoas deixaram a pobreza entre 2010 e 2022. No mesmo período, a taxa caiu de 37,1% para 18,7%, impulsionada principalmente pela expansão do emprego, especialmente na indústria têxtil e em atividades urbanas.
Esse ponto costuma passar despercebido no debate público. Empregos não surgem de forma isolada. Dependem de uma engrenagem que envolve infraestrutura, ambiente regulatório, acesso a crédito e qualificação profissional. Sem esse conjunto, o crescimento tende a se concentrar e a deixar parte da população de fora.
Para Borges, um dos pilares dessa engrenagem é a formação adequada da mão de obra. “A solução passa por qualificação alinhada ao mercado. Países que mais geram empregos investem em formação técnica e digital e incentivo ao empreendedorismo. O digital traz inclusão e facilita a requalificação.”
O avanço tecnológico também introduz outro desafio: a automação. Mas isso não significa necessariamente desemprego permanente. “Automação não precisa gerar desemprego estrutural se houver requalificação profissional. Trabalhadores precisam migrar para áreas em expansão, como saúde e cuidados, enquanto políticas públicas estimulam setores que criam empregos complementares à tecnologia”, afirma.
A própria história recente do mercado de trabalho mostra como as mudanças tecnológicas eliminam funções e criam outras. “Profissões baseadas em tarefas manuais e repetitivas já desapareceram, como telefonistas, datilógrafos e operadores de telégrafo. A tecnologia substituiu funções operacionais por sistemas digitais”, explica o economista.
Outras atividades seguem o mesmo caminho. “Estão em declínio funções repetitivas como caixas físicos, digitadores e atendentes. Softwares, autoatendimento e inteligência artificial reduzem a necessidade desses postos.”
A tendência deve continuar nos próximos anos, diz Borges. “Devem encolher ocupações administrativas repetitivas, o telemarketing tradicional e funções intermediárias que não exigem especialização. Atividades padronizáveis são as mais substituíveis por tecnologia.”
Nem todos os trabalhadores afetados ficam permanentemente fora do mercado. “Parte conseguiu migrar para serviços, comércio, tecnologia e manutenção de sistemas automatizados. A reinserção ocorre principalmente quando há requalificação. Sem isso, há risco de informalidade, algo que tem aumentado no Brasil com aplicativos de transporte e entrega.”
Solução para novos empregos dos jovens
No Brasil, porém, a engrenagem do emprego também enfrenta obstáculos mais básicos. Há trechos de estradas de terra em regiões produtoras, especialmente no Centro-Oeste e no Norte, que se transformam em gargalos logísticos para o escoamento da soja. Durante o período de chuvas, caminhões ficam atolados, o transporte atrasa e os custos disparam. Não é um detalhe operacional. É uma limitação estrutural que afeta competitividade, reduz margens e desestimula novos investimentos. (Abaixo, link de Metamorfose Ambulante, com Raul Seixas).
Resolver esse tipo de problema não exige soluções sofisticadas, mas continuidade e execução. Pavimentação de rodovias estratégicas, manutenção regular, ampliação de ferrovias e integração com portos são medidas conhecidas há décadas. O entrave costuma ser outro: planejamento inconsistente, burocracia e dificuldade de coordenação entre entes públicos e iniciativa privada.
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Para Borges, infraestrutura e segurança institucional também têm impacto direto sobre o emprego. “Melhorar infraestrutura gera empregos de forma mais ampla porque reduz custos, aumenta produtividade e atrai investimentos. Diferente de políticas pontuais, esse tipo de medida estimula crescimento sustentável e demanda por mão de obra.” Ele acrescenta outro fator essencial: previsibilidade. “Previsibilidade jurídica também é decisiva para o crescimento geral do país. As regras não podem mudar no meio do caminho.”
Na prática, isso aparece em decisões aparentemente simples. Uma estrada pode mudar a dinâmica econômica de uma região inteira. Aumenta a circulação de bens, reduz custos e atrai empresas. O mesmo vale para educação técnica e digitalização, que ampliam as chances de inserção produtiva. Os jovens, agora, terão que disputar mais vagas, com menos empregos tradicionais disponíveis e mais exigência de qualificação para entrar e se manter no mercado de trabalho. Chaplin diria que são os Tempos Modernos.
