Pesquisadora da Unifesp analisa para o Portal E21 alguns detalhes de projeto entre os dois países que já começa a dar resultados
Eugenio Goussinsky
Uma das parcerias científicas entre Israel e os Emirados Árabes Unidos tem potencial para revelar como fatores biológicos, hábitos e condições ambientais influenciam a saúde de uma geração. Iniciado em 2018, o Human Phenotype Project (HPP), do Instituto Weizmann, passou a contar com a cooperação da Mohamed bin Zayed University of Artificial Intelligence (MBZUAI), dos Emirados Árabes Unidos.
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A parceria entre as duas instituições teve início praticamente ao mesmo tempo da assinatura dos Acordos de Abraão, pelos quais Israel normalizou suas relações diplomáticas com os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein, em setembro de 2020. Formalizada inicialmente por um memorando de entendimento, assinado em 12 de setembro daquele ano, a cooperação ganhou um programa conjunto de pesquisas em inteligência artificial (IA) em 23 de fevereiro de 2021.
Denominado MBZUAI–WIS Joint Program for Artificial Intelligence Research, o programa foi concebido como uma plataforma de cooperação científica nas áreas de aprendizado de máquina (machine learning), visão computacional, processamento de linguagem natural, biologia computacional e neurociências, além de aplicações da IA em saúde e genômica. Sua proposta original também incluía avanços em direção à inteligência artificial geral (AGI), capaz, em tese, de executar uma ampla variedade de tarefas intelectuais.
A colaboração aplicada ao HPP, idealizado pelo pesquisador Eran Segal, se desenvolveu posteriormente. O projeto surgiu como uma iniciativa de longo prazo, com o objetivo de compreender por que pessoas com características genéticas semelhantes podem desenvolver doenças diferentes e como antecipar esses riscos por meio da inteligência artificial.
A proposta é acompanhar milhares de voluntários durante anos e reunir dados sobre seu funcionamento biológico, histórico médico e estilo de vida. Entre as informações analisadas estão genética, exames sanguíneos, microbioma intestinal e oral, alimentação, sono, atividade física e condições ambientais.
Na pesquisa, a inteligência artificial ajuda a identificar associações entre esses fatores e o surgimento de doenças. O objetivo é desenvolver modelos capazes de prever riscos individuais e orientar intervenções preventivas. O diferencial está na abordagem integrada: em vez de examinar isoladamente o DNA ou os resultados de exames, os pesquisadores procuram compreender como esses elementos interagem ao longo da vida.
O HPP já produziu resultados científicos em áreas como metabolismo da glicose, sono, genética e microbioma intestinal, com estudos publicados em revistas especializadas. Essas descobertas, entretanto, dizem respeito à pesquisa original, desenvolvida em Israel, e não à coleta de dados iniciada posteriormente nos Emirados Árabes Unidos.
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Até julho de 2025, aproximadamente 28 mil pessoas estavam inscritas na pesquisa conduzida em Israel, sob coordenação do Instituto Weizmann. Até o levantamento divulgado em 2025, 13 mil participantes já haviam concluído a avaliação inicial, Em 2026, os exames começaram a ser realizados também nos Emirados Árabes Unidos.
Até meados de julho daquele ano, 209 pessoas haviam se inscrito na etapa emiradense, das quais 48 já tinham concluído a primeira avaliação clínica. A participação não se restringe aos cidadãos dos Emirados, pois inclui também estrangeiros residentes no país, entre 18 e 70 anos. A meta inicial é reunir mais de 4,5 mil voluntários.
Limites da influência genética
A ampliação da pesquisa para os Emirados pretende incorporar informações de uma população com características genéticas, ambientais e culturais distintas, o que poderá contribuir para aperfeiçoar os modelos de previsão de doenças e avaliar sua aplicabilidade em diferentes grupos populacionais.
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“Estimar a influência relativa de cada um desses pilares exige diferenciar o que acontece em uma população do que acontece em um indivíduo”, afirma ao Portal E21 Jéssica Espolaor, médica geneticista, formada pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Jéssica integra o grupo de pesquisa clínica em doenças raras do Instituto de Genética e Erros Inatos do Metabolismo (IGEIM), vinculado à Unifesp.
Ela explica que, na genética médica e na epidemiologia genômica, essa quantificação é feita por três eixos principais.
Um deles são os estudos de herdabilidade. “Os estudos com gêmeos e famílias estimam a herdabilidade, ou seja, quanto da variação de uma característica numa população se deve a diferenças genéticas; contudo, é importante entender que a herdabilidade descreve uma população em um dado ambiente, mas não diz que uma pessoa é X% genética e Y% ambiental porque genes e ambiente interagem entre si.”
Herdabilidade é a medida de quanto as diferenças genéticas explicam a variação de uma característica entre pessoas de uma mesma população. Não indica quanto de uma característica de um indivíduo é determinado pelos genes.
Outro, acrescenta Jéssica, são os estudos de associação genômica ampla (GWAS). “Estes mostram que, para a maioria das doenças comuns, o risco genético vem da soma de centenas ou milhares de variantes de efeito muito pequeno, e o escore poligênico resume essa soma em um número de predisposição; contudo, ainda apresenta limitações importantes de precisão individual e de aplicabilidade em populações diversas.”
Por fim, são utilizados os estudos de epigenética, que, conforme diz a dra. Jéssica, ajudam a explicar como o ambiente e o estilo de vida deixam marcas biológicas mensuráveis sem alterar a sequência do DNA, evidenciando que genética e o ambiente não são compartimentos separados, e interagem entre si.
A especialista ressalta que a influência da genética sobre a saúde precisa ser compreendida em conjunto com os fatores ambientais e comportamentais.
“A mensagem central é que, para a grande maioria das condições de saúde, a genética define uma faixa de susceptibilidade, enquanto o ambiente e o estilo de vida determinam se e quando essa predisposição biológica se manifestará clinicamente.”
