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Um detalhe pouco lembrado da história de Moisés e Arão

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Arão não foi apenas um assistente de Moisés | Foto: Beit Chabad/Art by Sefira Lightstone

Ambos tiveram papeis complementares para a saída dos judeus do Egito

Eugenio Goussinsky

Nesta época de Pessach (Páscoa judaica), que relata a saída dos judeus do Egito, um detalhe pouco lembrado sobre as pragas do Egito revela que o protagonismo da narrativa não esteve concentrado apenas em Moisés. De acordo com o Livro do Êxodo, foi seu irmão Arão quem executou diretamente as três primeiras pragas que atingiram o Egito: a transformação das águas em sangue, a invasão de rãs e a praga de gafanhotos.

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A sequência aparece de forma clara no texto. Primeiro, Arão estende o cajado sobre as águas do Egito e o rio se transforma em sangue (Êxodo 7:19–20). Depois, repete o gesto que desencadeia a praga das rãs (Êxodo 8:5–6). Em seguida, golpeia o pó da terra, provocando a infestação de insetos (Êxodo 8:16–17). Nestes episódios, Moisés transmite as instruções recebidas de Deus, mas é Arão quem realiza o gesto que desencadeia a praga. (Abaixo, link de When You Believe, com Whitney Houston e Mariah Carey).

Embora Moisés apareça como a figura central da libertação dos hebreus, a narrativa bíblica mostra que momentos decisivos da história envolvem também a atuação direta de Arão. Não como assistente, mas como uma liderança própria, responsável por falar em nome da missão diante do faraó, executar sinais como as primeiras pragas do Egito e, posteriormente, conduzir a vida religiosa de Israel.

A própria missão diante do faraó já começa com uma divisão de funções entre os dois irmãos. No Livro do Êxodo 7:1–2, Deus afirma que Moisés seria “como Deus” diante do faraó, enquanto Arão atuaria como seu “profeta”. Na prática, isso significa que Moisés recebe a mensagem divina e transmite a ordem, enquanto Arão frequentemente a comunica ou executa publicamente.

Esse papel não se limita ao início do confronto com o Egito. Arão, irmão mais velho de Moisés e membro da tribo de Levi, seria posteriormente estabelecido como o primeiro sumo sacerdote de Israel. Sua função era conduzir o culto religioso no deserto e inaugurar a linhagem sacerdotal que, segundo a tradição bíblica, continuaria entre os israelitas.

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A tradição judaica acrescenta ainda uma explicação para o fato de Arão executar as primeiras pragas. Comentários clássicos, como os do exegeta medieval Rashi, sugerem que Moisés evitou atingir diretamente o Nilo e o pó da terra por um princípio de gratidão. O rio havia salvado sua vida quando bebê, ao carregar o cesto colocado por sua mãe, e a terra teria ajudado a ocultar o corpo de um egípcio que ele matou. Por respeito a esses elementos, caberia a Arão realizar os gestos iniciais.

Moisés e Arão, partes de um casamento

Na tradição mística judaica, a entrega da Torá no Monte Sinai é descrita por meio de uma metáfora nupcial. O texto cabalístico do Zohar apresenta Moisés e Arão como shushvinim, isto é, acompanhantes simbólicos de um casamento. Nessa imagem, Moisés atua como o acompanhante do noivo, no caso Deus, enquanto Arão desempenha o papel de acompanhante da noiva, o povo de Israel. (Abaixo, link de Chai, com Ofra Haza).

A Torá, de acordo com a religião, foi transmitida ao mundo por intermédio de Moisés. Arão, por sua vez, é lembrado na tradição rabínica como alguém que cultivava proximidade com as pessoas e procurava aproximá-las da Torá, conforme a descrição preservada em Pirkei Avot 1:12.

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Essa distinção ilustra estes dois movimentos complementares. Moisés aparece na tradição como aquele que traz a revelação divina até o povo. Arão, em contraste, dedica-se a conduzir o povo na direção de Deus, incentivando sua aproximação espiritual.

Dentro desta metáfora do casamento entre Deus e Israel, as duas funções são vistas como partes de um mesmo processo. Enquanto a tarefa de Moisés enfatiza a descida da revelação divina em direção ao mundo, a atuação de Arão destaca o movimento inverso, no qual o ser humano se eleva espiritualmente em busca de Deus. Neste sentido, a missão de Arão foi a que alcançou o mais profundo desejo divino.

 

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