Ela ressalta que o histórico líder israelense tinha uma visão completamente diferente do atual governo, que mantém Israel sob pressão por causa das condições críticas de Gaza
Eugenio Goussinsky
O ex-primeiro-ministro de Israel, Shimon Peres, se tornou um símbolo da paz. Em 1994, ele recebeu o Prêmio Nobel da Paz junto com Yitzhak Rabin e Yasser Arafat, pelo papel nos Acordos de Oslo. Morreu em 28 de setembro de 2016, aos 93 anos. Em sua trajetória, porém, Peres sentiu também as dificuldades em lidar com conflitos.
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Havia se tornado, pela segunda vez, primeiro-ministro em 1995, substituindo Itzhak Rabin, assassinado naquele ano por um terrorista de origem judaica. No ano seguinte, pressionado, ordenou a Operação Vinhas da Ira, que deixou centenas de civis mortos no Líbano, durante ataques aos terroristas do Hezbollah. A operação, aliás, foi um dos argumentos para a “vingança” dos terroristas da Al-Qaeda nos ataques de 11 de setembro. (Abaixo, link de Al kol ele, de Naomi Shemer).
A busca pela paz, no entanto, tornou-se um dos alicerces de sua política. Principalmente no momento em que ele sentiu que a opção pelas guerras havia se esgotado. Como presidente do país, cargo que coroou sua trajetória política, ele teve uma função diplomática na defesa de seus ideais de paz. Era figura respeitada em conferências como a de Davos, na ONU e do Clinton Global Initiative, sempre promovendo a reconciliação.
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Para uma de suas principais assessoras, Revital Poleg, que trabalhou com ele no período em que atuou no processo de paz, Peres teria uma postura completamente diferente em relação à do atual primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu. Peres, aliás, perdeu uma das poucas eleições diretas para primeiro-ministro em Israel, em 1996, quando Netanyahu assumiu o cargo pela primeira vez.
“Não tenho a menor dúvida de que, se Shimon Peres [com quem tive a honra de trabalhar entre 1993 e 2000, durante o processo de Oslo] estivesse vivo hoje, não teríamos chegado a essa situação”, afirma Revital ao Portal E21.
“Ele me ensinou que, quando se representa o público, ‘você age em nome de algo maior do que você mesmo’, em nome de todo o povo como um coletivo, e de cada indivíduo como um ser único, independentemente de sua posição política, social, econômica, de seu gênero ou religião. O importante não é você, é o país.
Essa é uma visão de mundo completamente diferente da que guia a atual liderança de Israel, infelizmente.”
Derrota política, não pessoal, em 1996
Peres contou ao repórter Robert Littel, no livro Shimon Peres, em homenagem aos 50 anos de Israel que, no momento em que deixou o governo, naquela derrota de 1996 para Netanyahu, ainda mantinha a confiança da população. A questão foi mais partidária, em função das diretrizes mais combativas no Likud, do que pessoal, segundo deu a entender. As críticas ao governo que assumia, porém, já eram um sinal da divisão que passou a prevalecer em Israel.
“Acho que o atual governo cometeu muitos erros e perdeu a confiança”, disse ele, em 1998. “E por esse motivo, tornaram os palestinos ainda mais cautelosos. Mas conosco, o processo de paz poderia ter ido bem longe.” (Abaixo, link de Blowin’ in the wind, com Bob Dylan).
É nisso que Revital acredita, passados quase trinta anos e com Israel em meio a um impasse em Gaza, sendo acusado de promover a fome como política e responsabilizado pela morte de dezenas de milhares de civis. Tudo como consequência do brutal ataque de 7 de outubro, quando o grupo terrorista Hamas assassinou mais de 1,2 mil pessoas no sul israelense, além de sequestrar mais de 250.
O grupo ainda mantém cerca de 50 reféns sob controle. Para Revital, com Peres, a situação não iria chegar a este nível de ódio.
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“Shimon Peres era um estadista que acreditava na paz e trabalhava ativamente por ela”, prossegue ela, que também atuou como chefe de gabinete e assessora para assuntos internacionais do presidente do Knesset (Parlamento), Avraham Burg, entre 1999 e 2003. “Essa nunca foi uma missão fácil, e sempre esteve repleta de desafios e obstáculos. Mas, como ele costumava dizer, um processo de paz se faz entre inimigos, não entre amigos, e a alternativa à paz é muito mais difícil e sangrenta. Ele faz muita falta.”