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‘Fiquei triste com a derrota do Brasil’, revela lendário árbitro de Brasil x Itália na Copa de 82

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Abraham Klein esteve como convidado na Cioa di Mundo de 2026 | Foto: Abraham Klein/Acervo pessoal

Em entrevista exclusiva ao Portal E21, israelense Abraham Klein, um dos maiores da história, fala, entre outros, sobre aquela derrota brasileira, o futebol moderno, o início de sua carreira e a paixão pelo Brasil

Eugenio Goussinsky

Para quem muitas vezes se esquece de que o árbitro tem sentimentos, o israelense Abraham Klein, um dos maiores da história, contraria essa falsa ideia. A paixão pelo futebol sempre o moveu. Esteve presente nos momentos mais difíceis de sua vida. Como quando jogava descalço, por sua família não ter dinheiro, durante sua infância em Timisoara, Romênia, em meio ao nazismo e à perseguição contra os judeus.

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Já no auge de sua carreira, o drama de ter seu filho no front, na Guerra do Líbano, em 1982, quase o impediu de apitar a célebre partida entre Brasil e Itália, na fase que equivalia às quartas de final da Copa do Mundo da Espanha, naquele ano. Só decidiu entrar em campo depois de ter recebido uma carta de Amit, contando que estava vivo e bem.

Em entrevista ao Portal E21, Klein, aos 92 anos, continua, como convidado, viajando para os grandes eventos da Fifa, como embaixador do museu da entidade. Klein esteve na última Copa, tendo inclusive assistido à semifinal entre França e Espanha em Dallas, Estados Unidos. Ele falou a respeito de sua relação com o judaísmo, da emoção de conhecer Pelé, de apitar os jogos da Seleção Brasileira e de como vê o futebol moderno, na era do VAR. Confira.

Como era sua relação com o futebol na infância?

Primeiro de tudo, a verdade é que, na Romênia, quando eu era criança, eu já gostava de futebol. O jogo era muito praticado na minha cidade, Timișoara. Nós jogávamos futebol em uma liga de crianças, pequenas crianças, sem sapatos. Não tínhamos dinheiro para comprar sapatos. Então, era uma liga de crianças sem sapatos.

Como era a vida dos judeus em sua cidade?

Os judeus não podiam fazer quase nada, havia muitas perseguições contra os judeus. Nasci em 1933 e era criança quando a guerra começou. Naquela época, os alemães dominavam a Romênia e perseguiam os judeus. Antes de mandarem os judeus para os campos de extermínio, o Exército soviético entrou na Romênia. Conseguimos deixar o país.

Do que se lembra do futebol na Romênia?

Naquela época, na Romênia, havia dois times. Um se chamava CFR. Era o clube dos ferroviários. O segundo era o Politehnica, ligado à engenharia. As duas equipes eram muito boas. E em uma delas jogava um jogador fantástico. Seu nome era Andrei Rădulescu. Ele jogou na seleção nacional. Também foi presidente da federação, observador da Uefa e delegado da Uefa. Eu o conheci. O nome é Andrei Rădulescu. Ele esteve no México e também foi árbitro, como eu, na Copa do Mundo de 1970.

Como é a sua relação com o judaísmo, desde os tempos da Romênia?

Sou do tipo secular, não sou religioso, mas celebro as principais festas e datas, como o Yom Kippur. Voltei à Romênia muitas vezes. Primeiro, fui como delegado da Uefa à Romênia. Estive como delegado da Uefa na Romênia em muitos grupos. Também levei toda a minha família a Timișoara para conhecer o lugar onde eu morava. E também os levei à sinagoga, porque eu costumava frequentá-la quando era criança, junto com meu avô, que era um homem religioso.

Como o senhor chegou a Israel?

Vim com outras crianças, depois de ficar um tempo na Holanda, dentro de um grupo organizado. Eu tinha 13 anos. Sobrevivi aos horrores do Holocausto quando era criança, antes de fazer aliá — imigrar para Israel — em 1947, pouco antes da criação do Estado, em 1948. Eu jogava futebol em uma liga infantil, sem chuteiras, porque não tínhamos dinheiro. Isso aconteceu durante meus primeiros anos de infância, em meio à guerra e à perseguição. Mas, quando cheguei a uma nação jovem, que enfrentava muitas dificuldades, o futebol rapidamente se tornou uma linguagem universal para mim, uma maneira de fazer amizades e de me integrar à sociedade israelense. Fiquei em um kibutz durante um ano, depois estudei no primário e, mais tarde, na universidade, na área de Educação Física.

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O que o levou a se tornar árbitro?

Minha passagem para a arbitragem aconteceu inteiramente por acaso, quando fui a um alfaiate local chamado Jonas para encomendar uma calça. Jonas, que era árbitro amador, estava a caminho de uma partida que iria apitar e me convidou para acompanhá-lo. Durante o jogo, ele sofreu uma lesão e me pediu que assumisse o apito. No momento em que apitei pela primeira vez, senti naturalmente uma sensação de autoridade, tranquilidade e paixão por comandar o que acontecia em campo.

Que lições o senhor tirou de sua passagem pelas Forças de Defesa de Israel (FDI)?

Servi nas FDI durante vários dos conflitos que ameaçaram a própria existência do país. Vivi diretamente a realidade e a intensidade da guerra. Passar por uma guerra proporciona uma profunda noção de perspectiva, força mental e capacidade de resistência, características que me acompanharam por toda a vida e durante minha carreira.

A experiência com a pressão da luta pela sobrevivência em Israel torna mais fácil lidar com as controvérsias em campo?

Ter vivido situações em que a própria existência do país estava ameaçada fez com que a pressão do futebol parecesse administrável em comparação. Quando você já enfrentou situações de vida ou morte durante uma guerra, lidar, por exemplo, com 150 mil torcedores gritando no Maracanã ou com jogadores irritados dentro de campo não o intimida. Isso me permitiu manter a calma absoluta, a neutralidade e a clareza de julgamento, mesmo sob enorme pressão.

Como foi sua adaptação às competições internacionais?

Depois de receber meu distintivo da Fifa, em 1965, minha carreira internacional cresceu rapidamente, com amistosos entre seleções, Jogos Olímpicos e Copas do Mundo. Apitar partidas de nível mundial me enchia de orgulho. Consegui lidar com a pressão dos grandes jogos porque me concentrava em uma preparação física incansável, no conhecimento profundo do comportamento dos jogadores e na imparcialidade absoluta.

Descreva os três jogos da Seleção Brasileira que o senhor apitou em Copas do Mundo.

Brasil e Inglaterra, em Guadalajara, em 1970. Depois de tomar conhecimento do que aconteceu com Pelé na Copa do Mundo de 1966 (foi atingido violentamente contra Portugal), nos jogos contra Portugal e Bulgária, decidi que, na partida que eu apitaria, todos os jogadores estariam protegidos. Foi uma obra-prima de jogo limpo, respeito mútuo e futebol bonito e fluido entre duas seleções campeãs mundiais. O Brasil x Itália, em Buenos Aires, de 1978, foi uma disputa muito física e intensamente tática, realizada sob o sombrio contexto político da ditadura militar argentina. Nunca me esqueço do gol de curva de Nelinho. Em Barcelona, Brasil e Itália, em 1982 foi um confronto inesquecível e eletrizante entre estilos de jogo, disputado no Estádio Sarrià.

Quais são seus ídolos no futebol?

Eu tinha profunda admiração por lendas como Bobby Moore, Dino Zoff, Zico, Sócrates, Falcão, Jairzinho e muitos outros. Mas apitar Pelé foi extraordinário. Ele era um gênio absoluto com a bola e, apesar de sua imensa fama mundial, demonstrava total respeito pelo árbitro e pelas regras do jogo. Encontrei Pelé pela primeira vez na partida entre Brasil e Inglaterra, em 1970. Mais tarde, apitei jogos dele no Cosmos. Em 1995, encontrei Pelé em Budapeste, numa partida de veteranos contra a Hungria. Atuei como seu intérprete, traduzindo do húngaro para o inglês. Também pedi que ele escrevesse a apresentação do meu livro, e ele escreveu.

Fale novamente sobre o porquê de não ter marcado o pênalti de Gentile em Zico na Copa de 1982.

Aquela partida entre Itália e Brasil, que terminou em 3 a 2 em 1982, continua sendo um dos maiores jogos da história. Quanto ao episódio em que Claudio Gentile puxou a camisa de Zico, isso se tornou motivo de protestos. Mas o bandeirinha havia sinalizado impedimento antes do lance em que a camisa foi puxada. Portanto, não poderia ter sido marcado pênalti, porque o jogo já havia sido interrompido. Não sei o que eu decidiria se tivesse o VAR na época, naquele momento foi a decisão a ser tomada.

Os italianos também reclamaram naquele jogo…

Agora vou lhe contar uma coisa. Na partida, se você assistir ao jogo novamente, assista ao jogo, depois do 3 a 2, Antognoni, um jogador italiano, marcou outro gol. Impedimento. Pelo bandeirinha, Thomson Chan Tam-Sun, de Hong Kong. Ele levantou a bandeira, sinalizou o impedimento. Eu apitei e aceitei a bandeira.

O que houve então?

Antognoni veio até mim. Tenho uma fotografia, vou enviá-la a você. Antognoni está vindo em minha direção. Ele demonstrou respeito por mim. Disse: “Árbitro”. “Árbitro”. Eu mostrei a ele com as mãos. Ele respeitou minha decisão. Ele não ficou feliz com minha decisão, assim como Zico não ficou feliz. Até hoje, Antognoni não está feliz com minha decisão.

O senhor tomou a decisão certa naquele lance?

Vou lhe contar outra coisa. Quando estive em Zurique, há dois anos, estavam lá todos os membros da Fifa, incluindo o presidente e o presidente do Comitê da Fifa. E então me fizeram uma pergunta. Você sabe, naquela ocasião também havia jogadores brasileiros, Falcão estava lá, Júnior também estava lá, e muitos jogadores italianos, e assim por diante. Eu me levantei e disse a eles: “Se naquela época eu pudesse mostrar na televisão, eu mostraria na televisão que o erro foi meu” . Todos olharam para mim. Eu disse a todos que o erro foi meu. Eles me disseram: “Não, não, não. Foi o bandeirinha. Ele levantou a bandeira. O erro foi do bandeirinha”. Eu respondi: “Olhem, o bandeirinha não é responsável pelo jogo. Naquela época, se o bandeirinha levantasse a bandeira e o árbitro aceitasse a sinalização, o responsável pelo jogo era apenas um homem: o árbitro.” Então, eu disse a todos, disse a todos: “A culpa foi minha.”

O que você sentiu com a derrota do Brasil naquele jogo contra a Itália?

Acredite em mim. Acredite no meu coração. Fiquei muito triste, porque não fui apenas eu. Foi um momento de tristeza. Acho que 90% de toda a população do mundo ficou muito triste. Atuei como bandeirinha no jogo Brasil e Nova Zelândia. Uma equipe fantástica. Eu me lembro. Mais tarde, fui bandeirinha no jogo Peru–Itália. Um jogo terrível. A Itália jogou na primeira fase: 0 a 0, 1 a 1 e 1 a 1. Então, todo mundo esperava que o Brasil disputasse a final, porque tinha uma equipe melhor. Fiquei triste pelo Brasil, porque amo o futebol brasileiro. Amo os jogadores brasileiros, todos aqueles cujos jogos apitei durante toda a minha vida. Todos eles.

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Por que a Guerra do Líbano de 1982 só lhe permitiu apitar um jogo naquela Copa?

Pouco antes da Copa do Mundo de 1982, na Espanha, começou a Primeira Guerra do Líbano, e meu filho Amit foi convocado para a linha de frente como soldado das Forças de Defesa de Israel. Dominado pela ansiedade e sem conseguir me concentrar, informei à Fifa que não tinha condições de apitar partidas. Inicialmente, atuei apenas como bandeirinha. Somente quando recebi uma carta de Amit, confirmando que ele estava em segurança, chorei de alívio e concordei em apitar Brasil x Itália. Se aquela carta não tivesse chegado, eu teria arrumado imediatamente minhas malas e voltado para casa, para ficar com minha família.

O que achou da atitude do brasileiro Raphael Claus, que expulsou um jogador dos Estados Unidos, nos Estados Unidos, na última Copa, e foi pressionado e criticado pelo presidente Donald Trump?

Os árbitros modernos trabalham sob intensa vigilância da imprensa, num ambiente em que até líderes mundiais e figuras políticas opinam sobre as decisões tomadas durante as partidas. O dever fundamental de um árbitro permanece o mesmo, independentemente dos comentários políticos externos: manter-se firme em campo, ignorar o ruído político vindo de fora e aplicar as regras com imparcialidade.

Como o senhor vê a introdução do VAR no futebol?

A tecnologia de vídeo é útil para decisões objetivas, como os impedimentos, mas não deve eliminar o ritmo natural e a fluidez do jogo nem retirar a autoridade final do árbitro principal. Uma das razões para a introdução dessa tecnologia, que ficou sendo debatida por décadas, foi o gol de mão de Maradona, em 1986.

Qual é o significado do futebol para o senhor?

Amo o futebol. O futebol é minha vida. A segunda vida é minha esposa (risos). Assisto a vários jogos, sempre, todos os dias. Agora mesmo estava vendo um jogo do Liverpool. Hoje isso é possível e aproveito.

Mas como o senhor avalia o futebol atual?

Não é o mesmo futebol de antes, mudou muito. Naquela época, quando Pelé jogava, quando Zico jogava, quando Jairzinho, Tostão, Carlos Alberto e Falcão jogavam, eram jogadores diferentes. Era um futebol diferente. Era um futebol romântico. E, se você me perguntar se eu gostava mais de assistir aos jogos da minha época ou aos dos anos 1990 para cá, digo que hoje é tudo tático, e o treinador fica sentado diante de um monitor, sabe? Ele decide o que fazer com o jogador. É um jogo diferente. Não é o mesmo. Então, um jogador genial como Pelé, como Zico, você não encontra hoje. Talvez Messi ou Cristiano Ronaldo. Mas não muitos jogadores.

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