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Israel: pobreza ainda atinge crianças, árabes e ultraortodoxos

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Israel apresenta a segunda maior taxa de pobreza infantil entre os países da OCDE | Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

Ao Portal E21, especialista analisa relatório anual do Instituto Nacional de Seguro, do país, que mostra permanente nível de desigualdade

Eugenio Goussinsky

A economia de Israel tem dado sinais de recuperação, depois de 7 de outubro, com crescimento do Produto Interno Bruto de 3,1% em 2025, segundo o governo. O país manteve sua condição de centro de inovação tecnológica. As exportações de tecnologias de alto nível alcançaram US$ 78 bilhões em 2024, um aumento de 5,6% em relação a 2023, impulsionadas principalmente por softwares e serviços de tecnologia. (Abaixo, link de Heal the World, com Michael Jackson).

O país, no entanto, não consegue superar um permanente nível de desigualdade. A pobreza se mantém há décadas em cerca de 20%, um patamar mais alto do que o de vários países europeus. Relatório anual do Instituto Nacional de Seguro (NII), de Israel, publicado em 30 de janeiro, revela que cerca de dois milhões de pessoas, incluindo 880 mil crianças e 150 mil idosos, viviam abaixo da linha da pobreza em Israel em 2024.

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Esse número representa 21% da população, o que equivale a um aumento de 0,3% em relação a 2023, cujo relatório foi publicado em dezembro de 2024. A taxa de crianças vivendo na pobreza é de 28%, um pouco superior aos 27,9% registrados um ano antes.

“Apesar de uma economia forte e de um crescimento tecnológico impressionante, o estudo aponta para uma fragilidade estrutural persistente na política social israelense”, afirma, ao Portal E21, Revital Poleg, ex-diplomata do Ministério das Relações Exteriores de Israel e colaboradora do Instituto Brasil-Israel. “Os mecanismos de bem-estar social não conseguem reduzir desigualdades profundas nem interromper a transmissão intergeracional da pobreza.”

Com aproximadamente uma em cada quatro crianças vivendo na pobreza, Israel apresenta a segunda maior taxa de pobreza infantil entre os países da OCDE, atrás apenas da Costa Rica. Isso apesar de a taxa de insegurança alimentar entre crianças ter caído de 36% em 2023 para 31,7% em 2024.

“As altas taxas de pobreza, especialmente entre crianças, indicam que o crescimento econômico não se distribui de forma equitativa”, prossegue Revital. “Em termos simples: há sucesso macroeconômico, mas um fracasso contínuo no nível dos lares.”

No total, 28,1% da população enfrentou algum nível de insegurança alimentar, com 9,9% em situação de insegurança grave.

As taxas de pobreza mais altas são das populações árabe e haredi (ultraortodoxa). Juntas, elas representam 65,1% das pessoas em situação de pobreza, quase o dobro da sua participação na população. Entre famílias judias não haredi, a taxa de pobreza é de 14%. Os outros grupos, como drusos e imigrantes de maneira geral, completam os 100%.

Em comparação com 2023, a incidência de pobreza entre famílias árabes e haredi diminuiu. Mas continua alta. Na população árabe de Israel, 37,6% está abaixo da linha da pobreza (contra 38,1% no ano anterior). O mesmo ocorre com 32,8% da população haredi, ante 33,0% em 2023.

“O fato de que a maioria dos pobres pertence à sociedade árabe e à sociedade ultraortodoxa [haredi] reforça o caráter estrutural do problema”, prossegue a ex-diplomata. “No entanto, nenhuma dessas sociedades é homogênea. Dentro delas também existem diferenças econômicas significativas — por exemplo, a situação particularmente difícil da população beduína no Negev, em contraste com outras comunidades árabes que alcançaram maior estabilidade econômica e social.”

Revital acrescenta: “Portanto, não se trata de um colapso da política social, mas de um descompasso estrutural persistente entre a força do crescimento econômico e a profundidade e velocidade das reformas sociais necessárias.”

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Entre as cidades com mais de 80 mil habitantes, as que têm maior pobreza são Modi’in Illit, Jerusalém, Beit Shemesh e Bnei Brak. Modi’in Illit é a mais pobre de Israel, com 48,2% de pobreza. Depois estão Jerusalém, com 38,6%, Beit Shemesh com 36,3% e Bnei Brak com 31,1%.

O critério para a linha de pobreza, fixado em 2024, é o de uma renda mínima de 3.547,00 New Israeli Shekel (NIS) por pessoa por mês (R$ 5.890,00), um aumento de 229 NIS em relação a 2023. Para um casal, o valor é de 7.095,00 NIS (R$ 11.790,00), e para um casal com três filhos, 13.303,00 NIS (R$ 22.098,00). Em 2024, como dito, 28,1% dos israelenses enfrentaram insegurança alimentar devido a fatores econômicos, incluindo 9,9% em situação de insegurança alimentar muito grave.

Árabes e ultraortodoxos

Em relação à pobreza entre a população árabe, Revital considera que o quadro é complexo: há tendências claras de melhoria, mas as desigualdades estruturais ainda resultam em baixa renda familiar e dificuldades de mobilidade social.

“Trata-se principalmente de desigualdades de oportunidade — e não de falta de disposição para integração”, observa ela. “Entre os principais motivos para a pobreza entre os árabes estão o investimento público insuficiente ao longo de décadas em infraestrutura e zonas industriais, o acesso limitado a centros de emprego e uma taxa relativamente baixa de participação feminina no mercado de trabalho — embora já se observe uma mudança significativa nesse campo.”

Ela ressalta que, além disso, há concentração em ocupações de baixa remuneração, ao lado de um crescimento constante na entrada em profissões altamente qualificadas.

“Por exemplo, médicos árabes representam hoje cerca de 27% do total de médicos em Israel, percentual superior à sua proporção na população”, afirma Revital. “Famílias numerosas, com número reduzido de membros economicamente ativos, também contribuíram para pressionar a renda familiar ao longo dos anos. Ainda assim, a taxa de natalidade caiu de forma significativa na última década, aproximando-se da taxa do setor judaico, o que reflete mudanças sociais e econômicas profundas, inclusive o aumento da escolaridade feminina.”

As causas da pobreza entre os ultraortodoxos têm a ver com um modelo social-comunitário baseado em forte compromisso religioso, com implicações econômicas.

“A taxa de participação no mercado de trabalho entre homens haredim é de cerca de 50%, em comparação com mais de 85% entre judeus não ultraortodoxos”, afirma a ex-diplomata. “Embora as mulheres haredi participem do mercado de trabalho em proporções relativamente altas, a renda familiar permanece significativamente menor — e um homem haredi ganha, em média, menos da metade do salário de um homem judeu não ultraortodoxo.”

Ela observa ainda que, a essa questão da remuneração, somam-se altas taxas de natalidade, lares com poucos provedores e lacunas educacionais e de qualificação profissional — em parte devido à ausência de currículo básico completo para meninos em muitos estabelecimentos de ensino.

“O resultado é também uma produtividade do trabalho significativamente menor, cerca de 60% inferior à registrada entre judeus não ultraortodoxos.”

Pobreza na Europa e em países árabes

As taxas de pobreza em Israel ainda estão mais altas em comparação com os países mais ricos da Europa. Segundo o Instituto Federal de Estatística da Alemanha (Destatis), entre 2024 e 2025, o índice na Alemanha foi de 15,5%; na França, de 15,9%; na Itália, de 18,9%. A taxa mais alta, segundo a Eurstat, é da Bulgária, com 30,3%. A média entre os países da União Europeia foi de 16,2%, segundo a Eurostat. (Abaixo, link de Kan, com Orna and Moshe Datz).

A comparação entre alguns países árabes e Israel é diversa. Na Jordânia, as estimativas de pobreza, obtidas na Pesquisa de Renda e Despesas das Famílias (HEIS), de 2019, foram de 15,7% para jordanianos, com dados do governo.

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As pesquisas passam por reformulação, mas a constatação é a de que cerca de 30% da população na Jordânia é vulnerável à pobreza, em relação a choques econômicos ou climáticos. Nas últimas estimativas do Banco Mundial e do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), a taxa de pobreza entre refugiados aumentou de 57% em 2021 para 67% em 2023.

Na Síria, segundo a Organização das Nações Unidas, a taxa de pobreza quase triplicou, de 33% antes da guerra, iniciada em 2011, para 90% em 2026. A pobreza extrema aumentou seis vezes, de 11% para 66% no período.

Já nos Emirados Árabes Unidos, a pobreza praticamente inexiste. Segundo o World Bank Group, o índice de pobreza, de quem vive com menos de US$ 6,85 por dia, é de apenas 0,4%.

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