Destaque
75% dos árabes israelenses defendem entrada no governo
Pesquisa também revela que, depois de 7 de outubro, pioraram as relações entre populações árabe e judaica em Israel
Eugenio Goussinsky
Mais de 75% dos árabes israelenses defendem que um partido árabe entre em um próximo governo de coalizão. O dado, revelado em novembro por um novo estudo da Universidade de Tel Aviv, confirma um crescimento desta posição, no cenário político pós-guerra, relativo à incursão israelense a partir de 7 de outubro.
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A pesquisa, conduzida pelo Programa Konrad Adenauer para Cooperação Judaico-Árabe, mostra que a participação eleitoral hoje seria de 52,4%. Os partidos Hadash-Ta’al e Ra’am ultrapassariam a cláusula de barreira; Balad ficaria de fora. Se a antiga Lista Conjunta fosse recriada, o comparecimento subiria para 61,8% e o bloco poderia alcançar 15,5 cadeiras no Knesset. (Abaixo, link de Ani Veatá, com Arik Einstein)
A violência é a maior preocupação da sociedade árabe. Para 74% dos entrevistados, o combate ao crime é a urgência número um. Questão palestina e entraves no planejamento urbano aparecem bem atrás.
Para Karina Calandrin, pesquisadora do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo e colaboradora do Instituto Brasil-Israel, a pesquisa deixa claro que o apoio à entrada de um partido árabe na coalizão “não nasce de uma adesão acrítica ao sistema político israelense, mas de uma leitura muito concreta da realidade vivida pela população árabe no país”.
“O principal problema apontado pela pesquisa é a violência e o crime nas comunidades árabes, muito acima de qualquer outra pauta, inclusive da questão palestina”, observa ela, para o Portal E21.
“Isso ajuda a entender por quê: estar na oposição não resolve esse tipo de problema. Segurança pública, orçamento, infraestrutura, políticas de juventude ou combate ao crime organizado só avançam quando se está na mesa de decisão.”
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As relações entre árabes e judeus pioraram depois de 7 de outubro, segundo 74,6% dos participantes. Para quase metade, a deterioração é profunda. O sentimento de pertencimento ao Estado enfraqueceu para 37,5%.
A guerra e os últimos anos claramente abalaram essa relação, mas não a romperam. Karina opina:
“Os dados confirmam isso que parte significativa relata um enfraquecimento do sentimento de pertencimento e uma deterioração nas relações com a população judia. Ao mesmo tempo, mais da metade afirma que a guerra não alterou sua relação com o Estado, o que mostra que não houve uma ruptura generalizada.”
A sensação de pertencimento é uma exigência permanente. Para que ela não fique apenas no papel e nos discursos. Apesar do cenário tenso, 64,6% ainda acreditam na cooperação política árabe-judaica. Só 44,7% acreditam que os judeus apoiam essa ideia.
Sobre o futuro do conflito, 47,3% veem a solução de dois Estados como o único caminho realista. Um Estado único convence apenas 14%. E 21% não enxergam qualquer solução no horizonte.
“O que emerge daí é uma cidadania marcada por desconfiança, frustração e ressentimento, mas ainda assim ativa”, ressalta a pesquisadora. “A população árabe quer direitos, segurança, reconhecimento e igualdade como cidadãos israelenses, sem abrir mão da sua identidade árabe e, em muitos casos, também da identidade palestina.”
Identidade árabe em Israel
Outro ponto levantado pelo estudo é que a identidade árabe é preservada. Este fator foi o principal marcador pessoal (35,9%), seguido da cidadania israelense (31,7%). Religião e identidade palestina completam o quadro. (Abaixo, link de Walking In Your Footsteps, com The Police).
Karina considera que a demonstração de que a identidade dos árabes de Israel não é binária foi um dos achados mais interessantes da pesquisa.
“A identidade árabe aparece como o principal elemento de autoidentificação, mas a cidadania israelense vem logo em seguida, muito próxima”, analisa a especialista. “Isso indica que não estamos falando de uma população que rejeita o pertencimento ao Estado, mas de uma cidadania vivida de forma ambivalente.”
O senso de insegurança entre os árabes é amplo: 76,6% se sentem vulneráveis. A alta da violência nas cidades árabes pesa mais no humor coletivo do que o temor de nova guerra, a situação em Gaza ou dificuldades econômicas. Mesmo assim, 73,4% dizem viver uma situação financeira boa, o índice mais alto desde o início da guerra.
O fato de o governo ser encabeçado por um partido de direita não seria um impeditivo, de acordo com ela.
“Do ponto de vista da sociedade árabe, a pesquisa mostra algo importante: uma parcela relevante estaria disposta a apoiar a entrada de um partido árabe em qualquer governo, não apenas de centro-esquerda”, acrescenta Karina. “Isso sinaliza abertura para o diálogo inclusive com governos liderados pelo Likud, desde que haja ganhos concretos.”
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O grande obstáculo, no entanto, não está do lado árabe, mas do lado do próprio sistema político israelense, especialmente da direita, na visão dela.
“Institucionalmente, nada impede a entrada de partidos árabes em uma coalizão liderada pelo Likud”, observa a colaboradora do Instituto Brasil-Israel. “Mas politicamente e ideologicamente, no contexto atual, isso é altamente improvável, não por falta de disposição da sociedade árabe, mas pela lógica de exclusão que hoje estrutura a direita israelense.”
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