Colunistas
Influenciadores artificiais
Eloá Idelsohn Goussinsky*
A expansão dos influenciadores artificiais representa uma das transformações mais profundas da comunicação contemporânea. A capacidade da inteligência artificial (IA) de simular pessoas, emoções e experiências autênticas desafia conceitos tradicionais de verdade, autenticidade e transparência.
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Os horários de postagem ideais, a segmentação de público e a recomendação de conteúdo, tudo isso é monitorado por IA.
Já a inteligência artificial geral (IAG) é capaz de gerar vozes, conteúdo e imagens, formando os sujeitos sintéticos que podem se tornar influenciadores digitais. Com influência sobre as pessoas, para uma opinião ou até uma venda.
Com essa revolução tecnológica podemos ser transportados ao passado, passear por cidades com carroças e vivenciar um pouco do dia a dia daquele tempo.
Há também as mais modernas, que captam um outro nicho. A modelo e influenciadora Aitana Lopez, gerada por inteligência artificial, é jovem, fitness e tem cabelo rosa. Está ganhando milhares de dólares por mês em contratos com marcas e patrocínios para seus criadores, baseados em Barcelona, na Espanha.
A Aitana tem mais de 390 mil seguidores no Instagram, o que faz dela uma das mais populares de uma nova onda de influenciadores realistas criados por IA.
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Essa ascensão dos influenciadores digitais, com uma legião de seguidores nas redes sociais, resulta num impacto significativo nos comportamentos de consumo e nas tendências de diversos setores.
Para se ter uma ideia, o Brasil tem 18 “Donas Marias” para dar as suas opiniões sobre política. A maioria delas não informa que é IA.
Essa situação é bem emblemática. O nome Dona Maria, nome popular, que traz uma conotação de uma pessoa comum, se parece com uma pessoa do povo e que parece refletir as ideias da maioria das pessoas.
Diante das eleições que se aproximam e da propaganda maciça que se espera, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) exige que materiais criados ou manipulados com IA tragam aviso explícito, em local de destaque e de fácil visualização, informando que o conteúdo foi produzido ou alterado artificialmente, além da tecnologia utilizada no processo.
O pior é que os avatares podem funcionar como vetores de desinformação política. Em 14 dos 18 casos mapeados, 78% do total, os conteúdos continham alegações enganosas sobre políticos ou instituições democráticas.
Os pesquisadores afirmam que os casos revelam um novo desafio para o ambiente informacional: personagens inteiros, aparentemente humanos, produzidos artificialmente para influenciar debates políticos e simular opiniões espontâneas nas redes sociais.
Outro personagem que fez sucesso nas redes foi o “Seu Zé da Feira”. O avatar, com características de um homem idoso, negro, ambientado em uma feira de rua, critica políticos de direita e defende o atual governo.
“Não vote em políticos da direita e do centrão. PL, PP, Republicanos e União. Não tão nem aí pro povo, são sindicato de patrão”, diz em um dos vídeos. Os posts são acompanhados por marca d’água da ferramenta de geração de imagens Veo 3 e sinalizados como sintéticos pela plataforma.
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O cérebro humano, como sabemos pela neurociência, interpreta estímulos com base em padrões e experiências, não necessariamente em sua origem. Uma imagem artificial pode ser recebida com a mesma intensidade emocional que uma experiência autêntica. Ou seja, mesmo sabendo que algo é fabricado, nosso organismo reage como se fosse real. Ainda mais diante daquilo que nem sequer sabemos que não existiu.
Para as próximas eleições, fique atento. Não nos cabe absorver somente o que nos é servido, há o direito a uma percepção não distorcida e autêntica da realidade. Isto inclui a transparência sobre conteúdos manipulados digitalmente, a preservação da integridade da experiência subjetiva, a oportunidade da convivência e da coexistência e a constituição de saberes críticos, analíticos, adaptativos e criativos, que ampliem nossa capacidade de discernir, imaginar e questionar.
*Eloá Idelsohn Goussinsky é advogada, atua no Procon-SP e é pós-graduada em processo civil. Também é especializada em Direito do Consumidor pela Escola Paulista da Magistratura. Tem escrito artigos sobre Direito do Consumidor para publicação em livros da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP), em São Paulo.
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