Destaque
Bruno Guimarães e seu novo desafio
Ao Portal E21, ele falou sobre a titularidade na Seleção e, desde o início do mês, luta para se recuperar de contusão e manter sua posição para a Copa do Mundo
Eugenio Goussinsky
A contusão de Bruno Guimarães, 28 anos, meses antes do início da Copa do Mundo é apenas mais um dos obstáculos a serem superados em sua carreira. Claro que todo jogador tem sua história de superação e dificuldades. Mas a dele tem um caráter peculiar.
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Bruno Guimarães sempre foi um menino sensível. Adorava jogar futebol nas brincadeiras de rua, em Vila Isabel, no Rio. Naquele tempo, o medo, a insegurança e os sonhos não eram forças ocultas que transitavam em seu interior e ficavam presentes sem que ele percebesse. Ele os reconhecia. (Abaixo, link de Titanium – David Guetta – feat Sia)
Isso fica claro quando Bruno conta sua história e transita por ela com carinho e saudade. Até dos tempos em que tudo era difícil. O número 39, por exemplo, virou símbolo para sua memória afetiva, por ser o número do táxi de seu pai. Remete ao esforço, zelo e amor no sustento da família. Já consagrado pela Seleção Brasileira, tem a exata noção do que hoje ele representa para as crianças, por já ter se sentido inebriado diante de seus ídolos, quando, na infância, foi jogar em São Januário.
Traz com ele o Maracanã desde pequeno, quando ia em grupos de 20 pessoas assistir aos jogos. Não escondia sua inibição. Aos 5 ou 6 anos, não sabia amarrar o tênis. Um pouco mais velho, vomitava antes dos jogos. A mãe trabalhava em uma loja de motos. Preferia que ele não fosse jogador. Até o colocou na natação, da qual, meses depois, ele implorou para sair.
Vascaíno de coração, passou a jogar futsal no Flamengo, do técnico Mário Jorge. Só via o pai aos sábados, quando tinha jogo ou treino, porque ele trabalhava no táxi durante a semana inteira.
“Nunca ouvi muitos jogadores de futebol falarem isso, mas quando comecei a jogar em um time de verdade, eu achava que não jogava nada”, contou ao The Players Tribune. “Ficava tão agitado na noite anterior aos jogos que tinha dores de estômago e começava a vomitar. Eu tinha dor de cabeça e febre às vezes e não conseguia dormir. Quando eu jogava, ao invés de jogar “leve”, eu me preocupava em estragar tudo. Sempre que eu jogava um jogo pra valer, era como se meu coração estivesse sempre batendo mais rápido. Era um bloqueio psicológico.”
Foi então que Mário Jorge se transformou em um segundo pai. Certa vez, aos 11 anos, jogava pelada em uma quadra, despretensiosamente. Apenas se divertia. “Não pensei que alguém estivesse olhando. Claro, como eu estava jogando para me divertir com meus amigos, eu me sentia livre. Eu estava acabando com o jogo.”
Sem ele saber, Mário Jorge estava olhando. Depois do jogo, o técnico entrou na quadra: “Bruno, deixa eu te perguntar uma coisa: por que você nunca joga assim quando é pra valer?”. “Não sei o motivo. Não fico à vontade. É complicado”.
Mário afirmou: “Preste atenção, não fica preocupado. Jogue como se fosse para se divertir e veja o que acontece”.
Muita coisa mudou para Bruno desde então. Sempre que pensava em desistir, essa conversa, de alguma forma, o convencia do contrário. Foi tão efetiva que o fez aguentar reprovações no Fluminense e no Botafogo, já no campo.
“Eles não me quiseram. Acho que aguentei uns três ou quatro treinos no Botafogo até eles dizerem: ‘Não, obrigado’. No Fluminense, aguentei um ano inteiro, enfrentando 2 horas de ônibus depois da escola, antes de me dispensarem. Quando você é criança, ouvir um não, assim, pode te destruir, e muitas vezes eu quis desistir.”
Leia mais: “Ancelotti e o respeito à Seleção”
Naqueles momentos, mesmo ainda criança, passou a entender mais um sentimento: o da resiliência. “Mas, graças a Deus, todas as vezes que eu queria desistir, minha mãe me contava a história do Cafu — e como todos os clubes o rejeitavam —, e ela dizia: “Você sabe qual é o seu sonho…””
Assim, Mário Jorge, em busca de jogadores nascidos em 1997 (Bruno nasceu em 16 de novembro daquele ano), o chamou para o Audax do Rio. Depois, ele foi morar sozinho em São Paulo, adolescente, para jogar no Audax paulista. Foi quando Fernando Diniz, então treinador da equipe, o lançou nos profissionais. O caminho estava começando a ser traçado. Vieram então o Athletico Paranaense, o Olympique Lyonnais, o Newcastle United, a Seleção Brasileira e a fama.
Bruno Guimarães e Ancelotti
Com o treinador Carlo Ancelotti na Seleção Brasileira, ele se tornou titular absoluto. Um dos poucos da equipe. Mas, quando fala a respeito, como na conversa com o Portal E21, usa sua própria história como exemplo. O jogador consagrado, neste sentido, tem em mente a filosofia utilizada quando menino, de nunca se acomodar, tampouco se perder na euforia.
“Acho que a gente veste a camisa da maior seleção do mundo, ninguém tem cadeira cativa, não é à toa que sempre tento aproveitar meus minutos em campo com ele [Ancelotti], graças a Deus tem sido muito bom pra mim, tenho conseguido ser o Bruno que eu sempre quis ser na seleção, mas é continuar trabalhando, pezinho no chão, que tem muita coisa pela frente”, disse Bruno Guimarães ao Portal E21. (Abaixo, link de É Preciso Saber Viver, com Titãs)
E quando ele descreve seu momento na seleção, ainda durante as Eliminatórias, parece que a consagração é uma conquista subjetiva. Seu discurso, afinal, poderia se encaixar aos momentos de sua infância, quando, em meio às dificuldades, ele buscava forças para superar as tão conhecidas incertezas.
Leia mais: “O antigo futebol moderno”
“É, altos e baixos, muitas turbulências, enfim, vivi tudo aqui caminhando da seleção. Graças a Deus estou tendo um momento de glória agora. Depois de muita coisa que a gente passou, muitas incertezas, mas feliz demais por esse momento.”
Com a contusão na coxa esquerda, ocorrida em fevereiro, em um jogo contra o Tottenham, Bruno Guimarães terá mais um desafio pela frente. Mas, como Mário Jorge, Ancelotti também confia no potencial dele. Para estar na Copa, resta agora a Bruno Guimarães, primeiro, se recuperar com calma. E, depois, jogar como se fosse para se divertir e ver o que acontece.
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