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O antigo futebol moderno

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Holanda Cruyff futebol
Seleção da Holanda, de Cruyff , apresentou futebol moderno | Foto: Reprodução/Redes sociais

Pode parecer uma contradição. Mas não é de hoje que se faz o futebol moderno. Muitos dos conceitos atuais, ainda que sem tanto método, já existiam, por exemplo, na final da Copa do Mundo de 1954, entre Alemanha e Hungria.

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Colocar apenas a Hungria daquele ano como referência para transformações táticas é uma injustiça com o time da Alemanha. O atacante alemão Rahn, afinal, já era o típico ponta que entrava pelo meio. Ele chutava bem com os dois pés. Isso sem contar as inversões entre Fritz Walter e Otmar Walter nas jogadas ofensivas.

No primeiro tempo, pela esquerda, Rahn chutou com a canhota para defesa de Grosics. No segundo, pelo meio, ele fez o gol da vitória por 3 a 2, de direita, depois de sua equipe estar perdendo por 2 a 0. (Abaixo, link de The Times They Are A-Changin’, com Bob Dylan)

Eckel também já mostrava, como volante, um senso de cobertura típico dos times de Guardiola. Evitou, por exemplo, uma avançada de Czibor, outro ponta que entrava pelo meio, depois de ele receber um passe de trivela de Kocsis, nas costas de Kohlemeyer.

Essa jogada já evidenciava o que depois veio a se chamar de pressão pós-perda. Refletia algo do jogo posicional, sem uma marcação por zona pura, mas com os jogadores desempenhando funções pontuais na recuperação. O jogador, individualmente, nesses momentos, era a referência, de acordo com a necessidade da jogada.

No jogo posicional do técnico Guardiola, do Manchester City, cada jogador tem um lugar de referência no campo e uma função ligada a esse lugar. Não para ficar parado, mas para organizar o time, abrir e fechar espaços e facilitar as decisões com a bola.

O time se organiza para atacar e defender ocupando bem o campo, mantendo amplitude (usar a largura) e pouco distanciamento vertical (aproximação dos setores), para sempre ter opções de passe e recuperar a bola rápido.

Um aspecto fundamental do jogo posicional é a densidade funcional. Ela ocorre quando, por causa deste distanciamento curto, vários jogadores do mesmo time estão perto da bola para ajudar. Cada um fica encarregado de de acordo com a necessidade: passar, marcar, apoiar, para que, mesmo bem aberto, o time não fique desprotegido em determinada parte do campo.

Mais importante do que o nome do estilo é a importância de uma organização que dê vazão à flexibilidade dos jogadores. O posicional não é utilizado por todos os treinadores, mas se torna uma referência da importância da organização tática.

A palavra tática tem origem no grego, como taktikḗ (taktikḗ téchnē), que significava “a arte de organizar” ou “a arte de dispor em ordem”.

Tais conceitos foram se aprimorando ao longo dos anos, com o avanço da ciência. Isso beneficiou o desenvolvimento de métodos e de treinamentos repetitivos. Mas foram semeados décadas antes. A primazia do futebol sempre pertenceu aos países que, sob formas diferentes, descobriram maneiras mais eficientes de dominar o espaço, o ritmo e a relação entre jogadores.

O técnico inglês Herbert Chapman (1878–1934), nos anos 1930, não falava em jogo posicional. Mas foi um dos primeiros ajustar o time de maneira racional. Seu objetivo era dar função aos jogadores, na defesa, no meio e no ataque.

Ao estruturar o WM (o esquema 3-2-2-3) no Arsenal, estabeleceu setores, reduziu o distanciamento vertical entre defesa e meio-campo e criou uma lógica coletiva de ocupação do espaço. São condições básicas para o atual modelo posicional.

A equipe de Chapman, nessa etapa embrionária, já buscava encurtar espaços atrás da bola, ainda que de forma conservadora, protegendo mais do que pressionando. Alex James (1901–1953), lendário centro-médio escocês, dava início às jogadas; Cliff Bastin (1912–1991), pela ponta, mantinha a amplitude; e o bloco defensivo se movia de forma coordenada. Era um futebol estrutural, rígido, mas essencial para que o jogo deixasse de ser uma soma de duelos individuais.

Nessa mesma época, a Europa Central começava a interpretar o jogo de forma mais sofisticada. Sob o comando do austríaco Hugo Meisl (1881–1937), a Áustria do Wunderteam rompeu com a rigidez tática inglesa. Meisl era outro a entender que o time precisava reduzir o distanciamento vertical. No caso dele, não apenas defensivamente, mas também com a bola. Aproximou jogadores para aliar a técnica ao jogo coletivo. (Abaixo, link de Brothers In Arms, com Dire Straits)

Matthias Sindelar (1903–1939), também da Áustria, foi quem executou esta ideia. Como centroavante, não permanecia fixo; recuava para conectar o jogo, arrastava defensores e criava vantagem pelo movimento. Algo próximo do chamado falso nove. Meisl introduziu muita densidade funcional: mais jogadores úteis ao jogo em uma mesma zona, não por aglomeração física, mas por inteligência de posicionamento.

Foi o tempo em que o brasileiro Elba de Pádua Lima, o Tim (1905–1984), jogador técnico e depois treinador, entendia tal visão ao valorizar circulação, apoio e observação coletiva do espaço, reforçando a ideia de que função começa a superar posição.

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Essa transição entre estrutura, de Chapman, e função, de Meisl, ganha consistência com os húngaros Márton Bukovi (1903–1965) e Izidor Kürschner (1885–1941). Eles flexibilizam a organização do time. Distribuíram responsabilidades ofensivas e permitiram que o centroavante recue para organizar. A seleção húngara simbolizou este pensamento.

O jogo passa a concentrar funções por dentro, sem deixar de valorizar o avanço pelas extremas.  A Hungria dos anos 1950, com Gusztáv Sebes e Béla Guttmann, teve Hidegkuti, assim ocorreu com Sindelar, na função de centroavante recuado. Puskás, pelo meio, se aproxima da área para finalizar. Czibor se movimenta desde ponta para criar por dentro, Kocsis arma e avança. József Bozsik, como centro-médio, controla o ritmo.

A equipe é mais uma que reduz o tal distanciamento vertical entre os setores. Aproxima seus jogadores para atacar e, sem a bola, tenta reduzir espaços de forma mais agressiva. Neste esquema, há clara preocupação com densidade funcional e uso vantajoso do espaço.

Antes, no Brasil, essa variação estabelecida por Kürschner no Flamengo, trouxe ainda a possibilidade de a equipe também jogar com um atacante centralizado, o centroavante, que não necessariamente voltava para buscar jogo. Foi ele quem recuou um meio-campista do WM, o transformando em quarto-zagueiro.

O Metodo italiano

O próprio jogo instigava novas descobertas, para tirar a simplificação do jargão em que 10 homens correm atrás de uma bola apenas. Nem a Itália de Vittorio Pozzo (1886–1968) nem a Internazionale de Helenio Herrera (1910–1997), argentino naturalizado francês, trabalhavam com jogo posicional como hoje.

Mas ambos já lidavam com ideias que seguem atuais: diminuição de espaços, compactação entre os setores e distribuição de funções aos jogadores. A marcação individual existia, mas sem desorganizar o time.

No chamado Metodo da Itália campeã de 1934 e 1938, jogadores como Giuseppe Meazza não atuavam fixos: saíam da área para tabelar e voltavam para finalizar, enquanto Luis Monti, como centro-médio, equilibrava proteção defensiva e início da construção.

Não era necessariamente um jogo posicional, mas já existia a mesma noção de que o time precisava manter uma movimentação coletiva.

A Internazionale dos anos 1960 tinha uma peculiaridade: a densidade funcional era mais direcionada à defesa. Herrera propôs que o controle do jogo viesse da bola negada ao rival. Armando Picchi, como líbero, garantia cobertura constante; Giacinto Facchetti atacava a partir da lateral; o atacante espanhol Luis Suárez puxava a transição.

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O time se mantinha atrás da bola, com encaixes individuais à frente, reduzindo o campo do adversário. Não havia ocupação volumosa das zonas ofensivas, mas havia absoluto domínio das distâncias sem a bola, o que facilitava as arrancadas em velocidade de Suárez.

A evolução prossegue com Rinus Michels. O técnico holandês leva essa lógica adiante ao perceber que a mobilidade ofensiva só se sustenta se o time tiver setores próximos. No Ajax e na seleção holandesa, encurtar espaços torna-se princípio central, tanto com a bola quanto sem ela.

O distanciamento vertical é intenso e a equipe passa a pressionar de forma coordenada. Cruyff não joga preso a uma posição, mas a uma função; Neeskens arma e faz coberturas; Krol constrói desde a defesa.

Este time é um clássico exemplo de densidade funcional no ataque, mas também na pressão pós-perda, quando vários jogadores ocupam a mesma região com funções complementares. Revela-se um manual de como o futebol deve ser entendido como sistema dinâmico.

No Brasil, a densidade funcional era preponderante, em função do talento dos jogadores. Quando organizada, permitia que os craques se organizassem para o desarme e partissem com toques rápidos e intuição para o ataque.

Muitas vezes, a marcação não se caracterizava pelo combate no corpo a corpo e não tinha a rigidez dos modelos europeus. A partir dos anos 1970, depois das inovações de Zagallo na Copa do Mundo do México.

Cláudio Coutinho (1939–2006) introduz um olhar mais científico e funcional, ao assumir a Seleção Brasileira para a Copa de 1978. Valorizou o combate ao colocar o volante Batista, técnico mas marcador, como titular. Cerezo já fazia as vezes do que hoje é o segundo volante.

Coutinho ainda aprimorar os conceitos táticos de movimentação e redução de espaços para o adversário. Difunde movimentações como o overlapping e o ponto futuro. Experimenta novos conceitos para atacar pelos lados sem deixar brechas.

Toninho Baiano, lateral-direito de origem, aparece aberto como ponta pela direita; Edinho, zagueiro firme e clássico, é adaptado à lateral-esquerda. A equipe do Brasil naquele Mundial passa a gerar amplitude com laterais e, ao mesmo tempo, a criar densidade funcional por dentro, antecipando preocupações que hoje são centrais no futebol.

O técnico seguinte, Telê Santana (1931–2006), segue um caminho menos estrutural, mas igualmente funcional. Seus times não eram compactados de forma obsessiva, mas buscavam reduzir o distanciamento vertical por meio da técnica e da aproximação natural entre jogadores.

Era uma variação de conceitos anteriores, baseada na altíssima qualidade técnica da equipe. Ele optou por laterais ofensivos, que ajudavam na criação e pressionavam, com isso, a equipe adversária. Falcão e Cerezo organizavam o jogo desde o meio; Sócrates atacava entre os setores; Zico pensava o jogo à frente.

Nos anos 1990, o italiano Arrigo Sacchi (1946) dá outra contribuição ao futebol contemporâneo. No Milan de Baresi, Maldini, Costacurta, Tassotti, Rijkaard, Gullit e Van Basten, o bloco se movia por zonas, não por perseguições individuais. A cartilha se repetiu: marcação adiantada, pressão coordenada, compactação extrema e redução permanente do distanciamento vertical.

A peculiaridade de Sacchi era não buscar a posse prolongada, mas o controle do espaço por meio do movimento sincronizado, com triângulos de jogadores que e mantinham o time curto atrás da bola e saíam com toques rápidos.

Manteve princípios estruturais — bloco, coordenação, função acima da posição — plenamente modernos.

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Pep Guardiola (1971) absorve isso como jogador, convivendo, como meio-campista do Barcelona, com o Milan de Sacchi como referência europeia e, sobretudo, com Cruyff, seu treinador, filtrando essas ideias no Barcelona.

Sacchi e Guardiola fixavam jogadores em regiões adiantadas, com o tal encurtamento de espaços. Mas Guardiola realça a amplitude, abrindo o campo para que o adversário também se abra. E, mais do que Sacchi, propõe maior posse de bola para controlar o jogo e proteger o sistema defensivo.

No campo, o desafio dos jogadores é buscar, por meio de passes, chutes, dribles, cruzamentos e antecipações, superar o adversário. Enquanto isso, treinadores inquietos passavam noites em claro desenhando possibilidades de facilitar esse trabalho. O conceito de modernidade é antigo. O futebol, dentro e fora do campo, evoluiu por causa de um fenômeno atemporal: a criatividade humana. Para transformar o que sempre existiu.

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