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“Eu achava que o antissemitismo era algo distante”, diz vereador mais jovem do Rio

Publicado

em

Flávio Valle vereador Rio de Janeiro

Em entrevista ao Portal E21, Flávio Valle, de origem judaica, comandou um estudo que relaciona o aumento da intolerância aos judeus à diminuição do número de turistas israelenses no Brasil

Eugenio Goussinsky

O vereador Flavio Valle (PSD), de 25 anos, é o mais jovem da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. De origem judaica, ele assumiu o cargo neste ano e, como legislador, tem experimentado na prática aquela velha máxima: “o vento que causa o bater de asas de uma borboleta no Brasil pode ocasionar um tornado no Texas, nos Estados Unidos.”

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A frase foi dita pelo meteorologista Edward Lorenz, em 1961, depois dele perceber que apenas uma leve mudança decimal em uma experiência no computador alterou toda a anterior.

Valle tem percebido que apenas o ordenamento urbano, o respeito dos bares às regras e a sustentabilidade da cidade, entre outros, são fundamentais mas não suficientes se a intolerância estiver presente.

Um imperceptível ato antissemita, afinal, pode provocar um terremoto do outro lado do mundo. Por ser uma questão que envolve a humanidade.

O combate à intolerância, especialmente ao antissemitismo, neste momento, se tornou uma de suas bandeiras. Seu gabinete apresentou um estudo, comandado por ele, para mostrar um aspecto concreto dos prejuízos causados por este discurso de ódio.

No estudo, ficou constatado que, em 2023, o Brasil recebeu 26.063 turistas israelenses, enquanto em 2024 foram apenas 14.516, uma redução de 11.547 visitantes (40%). No Rio de Janeiro, o número caiu de 5.669 para 3.073, uma queda de 2.596 turistas (45%).

(Clique para ver o estudo completo).

Em entrevista ao Portal E21, ele fala a respeito deste levantamento. Confira.

1 – Como foi realizado esse estudo sobre os prejuízos do antissemitismo?

Primeiramente, é importante destacar que este estudo é uma iniciativa do nosso gabinete na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Utilizamos os dados disponibilizados pela Embratur sobre a entrada de turistas israelenses no Brasil e no Rio, além do gasto médio do turista estrangeiro, segundo o Banco Central.

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2 – Quais são os principais dados que o estudo revelou sobre o impacto econômico do turismo israelense?

Os dados evidenciam a importância do turismo israelense para a cidade do Rio e para o Brasil. A vinda de jovens israelenses para passar férias no Brasil, principalmente após deixarem o serviço militar, já é uma tradição. Como mostra o estudo, em dez anos, a movimentação financeira gerada por turistas israelenses no país tem o potencial de atingir meio bilhão de reais. Não é uma quantia desprezível, ainda mais em tempos de discussão sobre ajuste fiscal.

3 – Como esses dados podem influenciar políticas públicas?

É imperativo não só abordar o antissemitismo de maneira ética e moral, mas também reconhecer suas implicações econômicas. Nosso estudo busca quantificar esses impactos, fornecendo dados que possam auxiliar na formulação de políticas públicas que promovam a inclusão, a diversidade e a harmonia social, garantindo assim um ambiente mais seguro e próspero para todos.

4 – O antissemitismo ainda é um problema presente no Brasil e no mundo?

Infelizmente, 80 anos depois do fim da 2ª Guerra Mundial e da libertação de judeus presos pelo Nazismo, ainda verificamos muitas atitudes antissemitas espalhadas pelo mundo e pelo Brasil. O Holocausto foi o ápice do antissemitismo, mas não o seu fim. O ódio contra os judeus não desapareceu. Pelo contrário, ele persiste assumindo novas formas e, muitas vezes, disfarçado sob diferentes pretextos para continuar sua disseminação. Mas não podemos e não vamos permitir que a história se repita.

5 – Até que ponto a redução de turistas israelenses no Brasil foi significativa?

Conforme mostrado nos dados do estudo, o número de turistas israelenses no Brasil e na cidade do Rio de Janeiro vem caindo nos últimos anos. Em 2019, último ano com dados ainda não afetados pela pandemia, foram quase 40 mil visitantes. Mais recentemente, em 2024, o número foi de 14,5 mil (até novembro). Ou seja, as quedas verificadas têm sido bastante substanciais, neste caso, cerca de 65%.

6 – Como você avalia a atuação do governo federal no combate ao antissemitismo?

Destaco mais uma vez que esse estudo foi realizado pelo meu gabinete e não pela Embratur, mas considerando que o fenômeno do antissemitismo pode ter consequências significativas não apenas para a comunidade judaica, mas também para a imagem e a economia do país, a Embratur pode desempenhar um papel importante nesse contexto. Um país que valoriza a diversidade e combate à discriminação se torna um destino mais atrativo para turistas de todas as origens.

7 – Há alguma iniciativa recente do governo que lhe deu esperança em relação ao combate ao antissemitismo?

Vi com bons olhos e esperança a nota emitida pelo presidente Lula por ocasião do Dia Internacional do Holocausto no último dia 27. Pode ser um indicativo de que o trabalho do governo federal pode ser intensificado para combater o antissemitismo aqui no Brasil. O combate ao antissemitismo é uma questão que transcende fronteiras, e a atuação do governo federal, alinhada com a sociedade civil e a comunidade judaica, é vital para promover um ambiente de respeito e convivência pacífica.

8 – Como você, um político da nova geração, se comunica com diferentes faixas etárias sobre o tema?

Procuro me comunicar com todas as gerações de forma transparente e didática, utilizando as ferramentas mais eficazes para cada público. Pela minha idade, 25 anos, e por atuar como um dos representantes do Hillel no Brasil e na América Latina, minha conexão com os jovens acontece de maneira natural e orgânica.

9 – Quais os principais canais que você utiliza para promover essa conscientização?

Além das redes sociais – que são essenciais para engajar os mais jovens –, também me faço presente em espaços como blogs, jornais, revistas, podcasts e webinars, onde posso ampliar a discussão sobre a história do antissemitismo e suas manifestações contemporâneas.

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10 – O estudo sobre o impacto econômico do antissemitismo pode contribuir para combater esse fenômeno?

O viés econômico do estudo ressalta apenas mais um aspecto dos custos do antissemitismo. Considero evidente o fato de que tais custos são muito maiores do que o custo econômico em si. Ainda assim, a contribuição do estudo está no esforço de quantificar ao menos uma parte desses custos. Com isto, podemos transformá-lo em algo mais concreto e de fácil assimilação pela população.

11 – Você sempre teve essa percepção sobre os perigos do antissemitismo ou isso se intensificou recentemente?

Eu achava que [o antissemitismo] era algo distante, considerava que era um termo mais utilizado no passado. Mas após o início da guerra em outubro de 2023, percebi que o antissemitismo voltou com força em todo o mundo. Pude perceber isso de perto, recebendo diversas mensagens de cunho antissemita na internet e observando a pichação de suásticas e mensagens provocativas em espaços públicos.

12 – Você já testemunhou algum ato antissemita em relação a você ou alguém próximo?

No dia 24 de janeiro último, numa sexta-feira, o desenho de uma suástica foi feito no banheiro masculino do quinto andar da Câmara Municipal, andar onde está localizado o meu gabinete. O ocorrido foi nas vésperas da data em que se comemora o Dia Internacional pela Memória do Holocausto (27/01). Isso evidencia que o antissemitismo não é algo do passado, mas sim um problema real e presente, que precisa ser combatido ativamente.

 

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