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EXCLUSIVO: a arte em resposta ao 7 de outubro

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Matan Angrest refém 7 de outubro Elisabetta Furcht
Matan Angrest ´foi um dos reféns retratados pela artista | Foto: Facebook/Elisabetta Furcht

Artista italiana Elisabetta Furcht, que ganhou visibilidade mundial ao criar obras sobre o drama dos reféns e dos ataques do Hamas, dá entrevista ao Portal E21

Eugenio Goussinsky

Desde criança, Elisabetta Furcht entrou em contato com a diversidade religiosa. Filha de pai judeu com mãe católica, aprendeu em casa que as diferenças podem construir um caminho de amor e de entendimento. Trabalhou por muitos anos em marketing e comunicação, dentro de sua formação acadêmica.

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Mas, inspirada na convivência com seu passado, sentiu-se livre para mergulhar no mundo da arte quando, já adulta, recebeu do filho Andrea um estojo de aquarela, para que ela não se sentisse só no momento em que ele ingressou na universidade.

O presente, dado em 2019, lhe abriu um caminho novo. Aos poucos, ela foi desenvolvendo um estilo leve, ao transmitir ternura e delicadeza em cada obra. Até que os ataques terroristas de 7 de outubro, em Israel, cruzaram com sua arte.

Elisabetta Furcht no Instagram

Elisabetta se tornou uma espécie de mensageira da paz. Ganhou visibilidade mundial contando o drama dos reféns, a história das famílias e momentos ligados à temática judaica. Por meio de gravuras que revelavam olhares, gestos e cenas em meio à tensão, à apreensão e ao horror.

Para ela, foi uma terapia e um desabafo. Para o público, uma manifestação de solidariedade e poesia que banhava de cores e luz a escuridão do ódio. Ao Portal E21, Elisabetta conta detalhes de sua vida e obra. Confira.

Como foi sua infância (do que você gostava de fazer etc.) e em que momento percebeu que se tornaria artista?

Tive uma infância muito normal e feliz. Minha família era bastante secular, pois meus pais pertenciam a diferentes origens religiosas: meu pai era judeu, enquanto minha mãe era católica. Sabíamos que meu pai havia sobrevivido à Shoá escondido em um internato católico em Como, na Itália, mas, naquela época, eu não pensava nisso como uma circunstância extraordinária. Era o nosso normal.

Minha mãe era pintora, mas eu nunca pensei que pudesse seguir seu caminho: escolhi estudar Administração na faculdade e fiz carreira em marketing corporativo. Foi somente muito mais tarde na vida que comecei a pintar: quando meu filho foi para a faculdade, ele me deu um estojo de aquarela na esperança de que eu preenchesse esse vazio dessa forma. Então comecei a fazer esboços e nunca mais parei.

Você é casada? Tem filhos? Se não se importar em compartilhar, por favor nos diga sua idade e os nomes de seus filhos.

Sou casada e tenho um filho adulto, Andrea, que trabalha com gestão de patrimônio. Meu marido e eu moramos em Turim, na Itália, com dois cães e três gatos.

Como era sua relação com o judaísmo antes de 7 de outubro?

Como mencionei, apenas meu pai era judeu. No entanto, minha identidade judaica é muito forte. Sempre pensei em mim mesma como judia, apesar de ser judia apenas por linhagem paterna: como meu pai costumava nos lembrar, Hitler e Mussolini teriam nos considerado judeus! O judaísmo era um tema central nas conversas com meu pai, especialmente do ponto de vista cultural. O antissemitismo também era frequentemente discutido em casa. No entanto, embora fosse central para minha identidade, eu não dedicava muita energia nem muitos pensamentos ao judaísmo e não o considerava uma fonte de preocupação.

Como era sua relação com Israel antes de 7 de outubro?

Eu havia visitado Israel algumas vezes: quando criança com meus pais, como estudante fui voluntária em um kibutz e, mais tarde, como turista com meu marido e meu filho. Em todas as vezes me senti em casa, e pousar em Israel sempre me trazia lágrimas aos olhos. No entanto, eu nunca pensei em Israel como uma questão: eu o via como um porto seguro, não como um palco para tragédias.

Como sua carreira evoluiu ao longo dos anos em termos de estilo, cores, objetivos e direção artística?

Só comecei a pintar em 2019 e sou autodidata. Adoro esboços rápidos e espontâneos em tinta e aquarela. Gosto de pintar um pequeno esboço todos os dias e contar histórias por meio de minhas ilustrações. Espero que meus esboços possam tocar o coração das pessoas.

Como você concilia suas carreiras como advogada e artista?

Você não precisa realmente equilibrar sua vida profissional se, como eu, pinta apenas esboços rápidos. Estou me afastando lentamente do trabalho e me aposentando feliz, sem filhos pequenos, então tenho mais tempo livre. No entanto, é fácil encaixar uma prática regular de desenho mesmo em uma vida corrida. É muito terapêutico e pode trazer muita alegria…

Qual foi sua reação quando soube dos acontecimentos de 7 de outubro?

Fiquei em completo choque e não conseguia acreditar. Esperava que fosse um pesadelo e que eu simplesmente pudesse acordar e descobrir que não era verdade. Continuei chorando e lendo as notícias. Fiquei realmente horrorizada.

O que a levou a iniciar esta série de pinturas relacionada a essa tragédia?

Depois de 7 de outubro, parei de pintar por alguns dias. Meus temas habituais (pequenas paisagens, cenas urbanas, ilustrações de comida) pareciam superficiais e fora de lugar. O único tema que eu conseguia pintar eram os reféns. Achei que todos voltariam para casa antes que eu conseguisse pintá-los a todos. Essa foi a minha Mitzvá (boa ação) por eles.

Quais são as principais mensagens que você deseja transmitir por meio dessas obras?

Pensei que minhas pinturas tinham diferentes objetivos:

Conscientização: enviar uma mensagem ao mundo, pedindo que não se esqueça dos reféns e continue exigindo sua libertação.

Solidariedade: enviar uma mensagem às famílias de que seus entes queridos não foram esquecidos.

Comunidade: dizer aos judeus de Israel e da Diáspora que somos uma família e que estávamos sofrendo juntos por causa dessa situação horrível.

Autoterapia: desenhar os reféns me ajudou a elaborar o horror que senti em 7 de outubro e nos meses seguintes.

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Você chegou a se emocionar ou chorar enquanto criava alguma dessas obras? Compartilhe um exemplo.

Na verdade, desenhar me ajuda a elaborar o luto, por isso raramente fico emocionada enquanto desenho. Talvez triste, mas desenhar exige muito foco e atenção plena, o que me obriga a manter o controle.

Quais são as semelhanças e as diferenças entre esses desenhos?

Todos os meus desenhos são esboços em tinta e aquarela, com um estilo que considero muito reconhecível. Comecei fazendo retratos, mas também adoro desenhar cenas coletivas, como manifestações ou desfiles, ou representar sentimentos compartilhados, como a solidão que os judeus da Diáspora podem sentir.

O que orienta sua escolha de estilo, cores e expressões faciais em cada obra?

Embora meus esboços sejam rápidos e espontâneos (normalmente levo de uma a duas horas para pintar um), presto muita atenção à qualidade dos materiais, especialmente aos pigmentos e às tintas. Adoro tons quentes e suaves, céus amarelados, árvores de outono e atmosferas evocativas. Também gosto de desenhar retratos com olhos expressivos, que dão a impressão de olhar para você com intenção. Quero mostrar a alma das pessoas que retrato.

Qual desses desenhos mais a marcou, e por quê?

O desenho no qual realmente coloquei meu coração e minha alma é o do Batman ao lado do balanço vazio, sob um céu alaranjado. Levarei para sempre os meninos Bibas em meu coração.

Depois de iniciar esta série, que tipos de reações você recebeu? Houve manifestações de apoio, incompreensão ou até hostilidade em relação ao seu trabalho? Compartilhe um exemplo específico.

Recebi, de modo geral, uma reação muito calorosa, principalmente de Israel e de judeus da Diáspora. Embora eu seja italiana, meus seguidores estão concentrados principalmente em Israel e Nova York: esse detalhe conta toda uma história sobre quem considera meus desenhos relevantes. Recebi comentários de ódio apenas muito raramente. No entanto, meus seguidores não judeus e meus amigos italianos foram, em sua maioria, frios. Resumindo: perdi amigos — ex-colegas, colegas de escola e amigos próximos da juventude que simplesmente me deixaram sozinha depois de 7 de outubro.

Agora que meu principal tema é o antissemitismo, recebo muitos comentários de ódio e, às vezes, ameaças diretas. Embora eu saiba que não deveria me importar, isso me machuca.

Preciso fazer esta pergunta apenas para confirmação oficial: você vendeu alguma dessas obras?

Não vendo nenhum desenho relacionado aos reféns ou ao 7 de outubro: simplesmente não quero ganhar dinheiro com eles. Doei os arquivos para a venda de impressões, com o objetivo de arrecadar recursos para leilões beneficentes.

Que tipos de obras de arte você produz? Elas são apenas relacionadas ao 7 de outubro? Se trabalha com outros temas, você vende essas obras?

Às vezes vendo meu trabalho, principalmente retratos. No entanto, não gosto de trabalhar por encomenda. Desde o retorno dos últimos reféns, a maior parte dos meus desenhos trata do antissemitismo, da vida judaica ou dos protestos iranianos contra o regime islâmico. Agora é possível comprar impressões de algumas das minhas obras (não relacionadas ao 7 de outubro) na Printio, um serviço israelense de impressão.

Qual é a sua opinião sobre o ressurgimento do antissemitismo?

Como filha de um sobrevivente do Holocausto, fico realmente feliz por meu pai não poder ver isso. O antissemitismo atual o assustaria até a morte. Por que os judeus não têm permissão para definir o que é antissemitismo? E por que o sionismo é considerado algo maligno? Somos a única minoria que não tem permissão para se defender. Acho que o antissemitismo sempre esteve presente, especialmente em países católicos como a Itália, meu país. Agora as pessoas experimentam a gratificação instantânea de expressar ódio aos judeus, não apenas sem se sentirem culpadas, mas sentindo uma superioridade moral. Isso é realmente doloroso.

De que maneiras seu trabalho pode contribuir para combater essa forma de intolerância?

Não tenho certeza de que isso possa funcionar. Apenas sinto que é minha missão combater o antissemitismo sem parar. Se eu conseguir tocar alguns corações, vou me considerar uma pessoa de sorte. É um projeto de longo prazo.

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Até que ponto a arte pode redimir os seres humanos e transformar o ódio em amor, e a guerra em paz?

Acho que meus desenhos, e a arte em geral, às vezes podem falar diretamente aos corações. Espero que, por meio do esforço artístico, possamos derramar um pouco de beleza e amor em lugares que agora estão na escuridão. Como isso pode acontecer, não sei dizer, mas tenho certeza de que acontecerá.

O que esses desenhos representam e o que a arte significa para você?

A arte, para mim, é disciplina, beleza, autoajuda, conexão, diálogo, amor… Eu jamais conseguiria parar de desenhar e recomendo a todos que comecem a fazer esboços. Desenhar não é um talento, é uma habilidade aprendida. Todos podem pintar e experimentar a maravilhosa sensação da criação artística.

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