Colunistas
Ancelotti e o respeito à Seleção
Eugenio Goussinsky
Há um lado utilitarista e excessivamente pragmático que se aproveitou de um período de vulnerabilidade da Seleção Brasileira para tripudiá-la, por meio de palavras disfarçadas de serenidade.
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Alguns comentários eram implacáveis, com uma dose de crueldade, ao colocar os clubes europeus e seus elencos bilionários como a verdadeira fonte de interesse do futebol. Isso depois de um suposto esgotamento do romantismo dos “ingênuos e idealistas”, que são, na verdade, a própria essência do futebol. Mesmo com ele tendo se transformado em um negócio.
Os jogos da Seleção Brasileira passaram a ser, nesses tempos em que a superficialidade e os modismos são estimulados, empurrados para o último bloco de muitos programas esportivos.
Frases como “o torcedor não quer mais saber de Seleção”, em parte verdadeiras, surgiam sem a ressalva necessária de que, para muitos dos indiferentes, tratava-se de um mecanismo de defesa. Uma negação da antiga paixão, movida pelo inchaço do clubismo e, sobretudo, pela falta de resultados satisfatórios da equipe nacional. (Abaixo, link de O que é o que é, com Gonzaguinha)
Era uma mágoa mal compreendida. Mas tratada por parte da mídia como uma sentença de decadência da equipe mais importante da história do futebol.
Bastou Carlo Ancelotti, o maior técnico de clubes da atualidade, deixar o Real Madrid, vedete das exaltações desses mesmos críticos, e passar a comandar seleção do Brasil, para o cenário mudar.
Ele tem demonstrado consciência da dimensão da Seleção Brasileira, maior do que a dele. As apostas antes eram de que o treinador não iria aceitar o convite.
Agora, é bonito vê-lo, observado por todos, demonstrar preocupações mastigando um chiclete à beira do campo. É reconfortante ver seu olhar atento, seus lábios rijos, seu semblante tenso, por causa da Seleção.
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Nos debates sobre a equipe, aqueles que antes depreciavam a Seleção mudaram a postura. Têm tentado desvendar as estratégias que Ancelotti quer implantar, sua cautela em não revelar segredos. Admitem, assim, o amplo envolvimento dele com este projeto. (Abaixo, link de Nessun Dorma, com Luciano Pavarotti)
Um grande treinador tem essa capacidade de ir além do campo. Suas atitudes revelam mais do que discursos.
Se algum treinador brasileiro dissesse que nenhum outro futebol, além do brasileiro, é capaz de oferecer tantas boas opções para se armar uma Seleção, seria considerado um lunático. Ancelotti disse isso e foi aplaudido.
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Ele, de certa maneira, frustrou aqueles que o endeusavam exclusivamente por seu sucesso no futebol de clubes. Ao exaltar a Seleção Brasileira, recolocou-a em seu devido patamar. Independentemente dos resultados imediatos. Tradição e possibilidades daqui para a frente deixaram de ser descartadas.
Foi algo simbólico e contundente. Ancelotti reafirmou, com a sua autoridade, a importância da Seleção.
Os programas esportivos voltaram a colocá-la no primeiro bloco. Não por acaso. Quando alguém de fora respeita o passado e acredita no futuro, fica mais difícil continuar desdenhando o presente. Ainda mais quando este alguém é Carlo Ancelotti.
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