Ciência e Tecnologia
EXCLUSIVO: Universidade de Tel Aviv: o impacto das cidades na vida do quero-quero

Professor explica, em entrevista ao Portal E21, como a presença humana influencia no comportamento destes animais
Eugenio Goussinsky
O quero-quero é um pássaro ligeiro. Prefere viver em áreas abertas, campos agrícolas, margens dos rios. Mas também é um pássaro esperto. Conseguiu se adaptar, ainda que de forma forçada, às áreas urbanas, bebericando nos pequenos lagos nos parques e até sobrevoando prédios em busca de um lugar confortável. Mas até o quero-quero e seu espírito aventureiro têm limites.
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O crescimento desenfreado das cidades afeta o comportamento da ave, que acaba tendo de se adaptar à dura realidade do asfalto, da fumaça, do calor abafado pela quantidade de prédios. Uma pesquisa da Escola de Zoologia da Universidade de Tel Aviv pesquisou justamente isso. Enquanto pessoas andam de lá para cá, buzinam e aceleram, pode haver em um cantinho na esquina, um quero-quero urbano necessitando de atenção.
E os pesquisadores se preocuparam exatamente com isso. Estudaram o comportamento e o movimento do quero-quero comum. O professor Orr Spiegel, como orientador, e o estudante de doutorado Michael Bar-Zivos compararam os hábitos dos “quero-queros urbanos” com os de seus homólogos “rurais”. Participaram do trabalho Hilla Ziv, Mookie Breuer, Eitam Arnon e Assaf Uzan, membros do Laboratório de Ecologia do Movimento e Comportamento Individual da universidade.
Foi o terceiro de uma série de estudos. Eles acompanharam, por meio de transmissores acoplados, as aves vanellus spinosus, espécie de quero-quero, nos Vales de Beit She’an e Harod, em Israel.
Constataram que as aves que vivem em assentamentos humanos apresentaram maior mobilidade do que aquelas em viveiros e campos próximos, especialmente durante a temporada de nidificação.
“Globalmente, a expansão dos assentamentos humanos impacta significativamente o comportamento da vida selvagem, à medida que os animais se adaptam para coexistir com as atividades humanas – ou abandonam essas áreas, ou morrem”, afirma o professor Spiegel ao Portal E21.
“Muitas vezes, a exposição aos humanos pode levar à habituação na vida selvagem, reduzindo a percepção de risco por parte dos animais locais. Essa habituação pode se manifestar como uma distância de início de voo (DIF) mais curta, indicando um risco percebido menor.”
Spiegel, ressalta que, de forma prática, o pássaro pensa: “estou menos assustado com você, então deixo você chegar mais perto antes de voar, e quando eu voar, farei isso por uma distância menor e de forma mais tranquila.”
Ele se refere a habitats dominados por humanos. No caso dos Vales de Beit She’an e Harod o termo urbano, na realidade, não é referente realmente a cidades, são pequenas vilas e kibutz, muito mais relaxados do que o centro de uma cidade movimentada. Mesmo assim, segundo ele, a convivência com humanos “pode fazer com que os animais desenvolvam comportamentos mais ousados, o que pode representar habituação especificamente aos humanos.”
Outra possibilidade, que os pesquisadores tentaram ressaltar, é a de que as mudanças urbanas podem levar a uma redução mais geral na resposta de evitação de predadores.
“Ou seja, o pássaro pensa: ‘não estou apenas habituado aos humanos, estou simplesmente menos assustado com os predadores’. Descobrimos que os resultados foram mais suportados pela última explicação (uma mudança mais geral), indicando que as aves que você vê fora da sua janela urbana são fundamentalmente diferentes em seu comportamento das suas congêneres em áreas menos perturbadas.”
Apesar de ainda não ter realizado os testes em ambientes tropicais ou em metrópoles como São Paulo, uma das cinco maiores do mundo, Spiegel prevê que a reação dos quero-queros teria ainda mais perturbações.
Segundo ele, grandes metrópoles apresentam desafios únicos para a vida selvagem, exigindo adaptações significativas.
“A presença humana nas metrópoles levará à extinção local e à evitação da maioria das espécies, podendo resultar em mudanças comportamentais na vida selvagem para o subconjunto de espécies que conseguem permanecer, como alterações nos padrões de mobilidade e exploração.”
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Além disso, prossegue Spiegel, o ambiente turbulento vai ampliar alguns dos padrões existentes em áreas menos intensamente alteradas.
“Áreas urbanas tão intensas também devem trazer algumas espécies como pombos e corvos ou minas que não são locais (invasoras) e bem adaptadas a explorar esses ambientes, trazendo um outro conjunto de ameaças para as espécies locais.”
Em busca de soluções
Estratégias eficazes de conservação são essenciais para minimizar os impactos negativos do desenvolvimento urbano sobre a vida selvagem, destaca Spiegel.
“Há um grande debate na área, se devemos preferir ‘economizar terra’ e tornar as cidades densas – e manter as áreas selvagens ao redor – ou devemos favorecer ‘compartilhar a terra’, ter cidades menos densas e incluir muitos parques urbanos para permitir que as aves permaneçam dentro das cidades. Eu tendo a achar que o primeiro é muito melhor, pois no final, os parques abertos não realmente mantêm a biodiversidade natural.”
De qualquer maneira, o debate é mais do que necessário – e urgente.
“Reduzir a perturbação humana em habitats cruciais da vida selvagem pode ajudar a mitigar os custos ecológicos associados à urbanização”, completa o professor.
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Isso seria fruto de uma mudança de atitude. Os seres humanos, enquanto caminham pelas calçadas, imersos em seus celulares, sem gestos, acenos ou sequer notando os outros ao seu redor, contribuem para que os animais, bicando e voando pelos cantos, se sintam ainda mais esquecidos.
Pesquisas como essa servem, justamente, como um retrato do momento atual. Estimulam a percepção de que o ser humano, ao contrário do que imagina, não é autossuficiente. Ele convive com outras espécies, esquecidas. E, para o seu próprio bem, precisa entender como elas são, o que sentem e do que precisam.
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