Colunistas
Messi contra a Inglaterra
Messi domina a bola no meio-campo, contra a Inglaterra. Não é um jogo simples. Não por ser semifinal da Copa do Mundo. Tem questão geopolítica: as Malvinas. As ilhas próximas do território argentino representam a identidade do povo. Desde a escola primária, crianças aprendem que “Las Malvinas son argentinas”. É lei até na Constituição. Tem questão histórica, sobre a influência inglesa no país.
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Messi inicia a jogada, depois do domínio. Poderia substituir aquela imagem pela de um soldado argentino em meio a três ingleses querendo eliminá-lo. Simbolicamente, era assim que viam os milhares de torcedores e os próprios jogadores que cantaram o hino quase urrando, para superar as vaias dos ingleses no estádio de Atlanta.
Messi já respinga suor no rosto. Transpira com o coração palpitante, no mesmo ritmo de seus companheiros. Eles se doam para não sucumbir. Não é apenas um jogo. O futebol é raiz quando ele representa uma cultura, a identidade de um povo. Inserida na identidade de cada um que corre, que tenta, que torce. Ah, se o jogador brasileiro de hoje fosse assim…Com tanta cidadania dentro de campo.
Messi arranca pela meia-direita. Disputa com Spence. A bola sobe e volta aos pés dele. Ele a domina, gira já derrubando Kane, que vem com tudo para desarmá-lo. Então dribla Gordon, prossegue na arrancada e se desvia de Anderson. Mas não do pontapé que o derruba e o faz cair já na reagindo, com os dois pés.
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Messi reagiu à tentativa inglesa de impedir a continuação da história. Pouco mais de quarenta anos depois. Quando Maradona, naquele mesmo pedaço de campo, traçou linhas imaginárias para além do horizonte. Também contra a Inglaterra. Poucos anos depois das Malvinas. E foi driblando, driblando, driblando, até chegar ao gol. Mas sua intuição era tão infinita, que ele poderia continuar driblando, com a mensagem de que, quando se acredita em algo, é possível alcançá-lo. Desde que ele carregue uma verdade interior tão grande, que é impossível pará-la.
Messi percebeu o que os ingleses pereceberam. O mesmo fenômeno de quatro décadas estava de volta. Para a Inglaterra, era preciso parar a qualquer custo. Mas é impossível segurar o desejo do destino, que tem uma força maior. Maradona, antes daquele gol, fez um com a mão, que ficou apelidado de Mano de Diós. Esse, dos dribles em sequência, completou a presença divina naquela partida. Poderia ser chamado de Pés de Diós.
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Messi cumpriu seu papel, mesmo derrubado. Buscou outros caminhos para terminar a missão. E foi pela direita que ele o encontrou. Dominou aquele espaço. Parecia que a Argentina tinha um jogador a mais, em campo. Deslocou-se sem ser alcançado, passou, lançou, criou, fez o que quis.
Messi driblou para a linha de fundo, cruzou de direita para o segundo gol. Resolveu o jogo. A sequência de dribles, à la Maradona, foi bloqueada. Mas Messi foi genial de outras maneiras. Ou do mesmo jeito. Seu time venceu de novo, por 2 a 1. Para aqueles que não acreditam em espiritismo, Maradona atuou naquela partida, em forma de inspiração. Bem que esta nova batalha contra a Inglaterra poderia levar o nome de Maradona de Diós. Nada mais argentino.
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